O Brasil é um país de maioria feminina. Segundo o Censo Demográfico de 2022, são aproximadamente 104,5 milhões de mulheres, correspondentes a 51,5% da população, contra cerca de 98,5 milhões de homens. Em números absolutos, existem aproximadamente 6 milhões de mulheres a mais que homens no país.
Diante desses números, uma pergunta merece espaço no debate público:
Em um país com 6 milhões de mulheres a mais que homens, será que nenhuma mulher está preparada para se candidatar à Presidência da República?
E talvez a pergunta mais importante seja outra: o problema está na falta de mulheres preparadas ou nas condições de acesso aos espaços em que uma candidatura presidencial se torna politicamente viável?
Os números ajudam a dimensionar a questão. Em janeiro de 2026, as mulheres representavam quase 53% do eleitorado brasileiro, com 82,5 milhões de eleitoras. Apesar disso, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, as mulheres ainda não chegam a 20% das pessoas eleitas no país. Nas eleições municipais de 2024, elas foram apenas 33% das candidaturas registradas.
Portanto, maioria populacional e eleitoral não se traduz automaticamente em representação política equivalente.
A Constituição não estabelece qualquer distinção de gênero para uma candidatura presidencial. Entre as condições de elegibilidade estão nacionalidade brasileira, exercício dos direitos políticos, alistamento eleitoral, domicílio eleitoral, filiação partidária e idade mínima de 35 anos para Presidente e Vice-Presidente.
O questionamento, portanto, não precisa ser sobre a capacidade das mulheres. Pode ser sobre representatividade, participação partidária, construção de lideranças, acesso às estruturas políticas e presença feminina nos espaços de decisão.
O Brasil já teve uma mulher na Presidência da República. Isso demonstra que a possibilidade institucional existe. Mas uma experiência histórica não encerra a discussão sobre representatividade.
Quando mais da metade da população brasileira é formada por mulheres e quase 53% do eleitorado também é feminino, é legítimo que a sociedade examine por que essa presença permanece muito menor nos postos eletivos de maior projeção.
Não se trata de defender que alguém deva ocupar a Presidência simplesmente por ser mulher. Gênero, por si só, não determina competência para governar. Da mesma maneira, não deveria funcionar como obstáculo para que mulheres qualificadas disputem os mais altos cargos da República.
A questão que fica para o debate nacional é simples:
Entre mais de 104 milhões de brasileiras, faltam mulheres preparadas para disputar a Presidência — ou ainda faltam caminhos políticos para que mais delas cheguem à disputa em condições de protagonismo?
Essa é uma pergunta sobre democracia e representação. E os números mostram por que ela merece ser feita.
Eunice Espinola
Jornalista DRT BA 5569
Fontes: Censo Demográfico 2022/IBGE; Tribunal Superior Eleitoral; Constituição Federal.