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COCO CHANEL X CHICA DA SILVA
De Paris a Diamantina: duas mulheres diante das fronteiras de seu tempo.
Por Eunice Espínola
Publicado em 23/08/2026 16:53
MUNDO NEWS

 

“Chica da, Chica da, Chica da Silva...”

 

A música ajudou a transformar Chica da Silva em personagem do imaginário brasileiro. Mas por trás da personagem celebrada pelo cinema, pela televisão, pela literatura e pela música existiu Francisca da Silva de Oliveira: uma mulher negra nascida sob a escravidão no Brasil colonial que, depois de alforriada, alcançou uma posição social extraordinária para alguém de sua origem e de seu tempo.

Séculos mais tarde e a milhares de quilômetros dali, outra mulher de origem pobre atravessaria fronteiras sociais aparentemente intransponíveis. Gabrielle Bonheur Chanel, a Coco Chanel, sairia de uma infância marcada pela pobreza e pela rígida educação conventual para ocupar lugar central na história da moda do século XX. O Metropolitan Museum of Art registra justamente essa infância empobrecida e destaca como Chanel transformou sua própria maneira de viver e vestir em uma linguagem capaz de influenciar o gosto feminino durante décadas.

O que poderia ligar Chica da Silva a Coco Chanel?

Não a época. Não o país. Não a raça. Não as circunstâncias históricas.

A conexão está em outro lugar: na capacidade de duas mulheres, separadas por mais de um século e por mundos absolutamente distintos, de ultrapassar os lugares que suas sociedades pareciam ter reservado para elas.

Chica: muito além da mulher que conquistou um homem poderoso

Durante muito tempo, contar a história de Chica da Silva significou contar a história de sua relação com João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes e um dos homens mais ricos do Arraial do Tijuco.

É uma narrativa insuficiente.

Chica nasceu escravizada, provavelmente entre 1731 e 1735, e foi posteriormente alforriada. Viveu com João Fernandes uma relação estável e pública por cerca de 17 anos e teve com ele 13 filhos reconhecidos pelo pai — algo particularmente significativo dentro daquela sociedade. Depois da partida de João Fernandes para Portugal, permaneceu no Tijuco com patrimônio e posição social consolidados.

Portanto, reduzi-la à fórmula “de escrava a amante de um fidalgo” é repetir exatamente uma das lentes que a historiografia contemporânea vem tentando superar.

Chica foi companheira de um homem poderoso, sim. Mas também foi mãe, mulher alforriada, proprietária, administradora de patrimônio e agente de uma complexa estratégia de inserção social de sua família.

Suas filhas receberam educação destinada às jovens das camadas privilegiadas. Seus filhos homens foram levados a Portugal e tiveram acesso a formação e posições de destaque. A própria Chica participou de irmandades religiosas e circulou por espaços sociais que demonstram o nível de prestígio que alcançou.

Sua morte também fala sobre sua posição: em 1796, foi sepultada no interior da Igreja de São Francisco de Assis, distinção associada às pessoas de elevado status social.

O mito da sedutora

Talvez um dos aspectos mais fascinantes da trajetória de Chica seja aquilo que aconteceu depois de sua morte.

A mulher histórica foi progressivamente transformada em mito.

Sedutora. Extravagante. Dominadora. Mulher fatal.

A pesquisadora e escritora Conceição Evaristo, ao discutir os estudos da historiadora Júnia Ferreira Furtado, chama atenção para a maneira como os relatos sobre Chica foram atravessados pelos preconceitos dirigidos às mulheres negras, às pessoas anteriormente escravizadas e às uniões consensuais. A personagem construída ao longo dos séculos acabou muitas vezes distante da mulher real que viveu no Tijuco.

E essa constatação muda profundamente a leitura de sua história.

Talvez a pergunta mais interessante não seja:

“Como Chica conseguiu conquistar João Fernandes?”

Mas:

“Como uma mulher negra, nascida escravizada no século XVIII, conseguiu negociar espaços de existência, patrimônio, reconhecimento e futuro para seus descendentes dentro de uma sociedade estruturada pela escravidão, pelo racismo e pelo patriarcado?”

Essa é uma pergunta muito maior.

E muito mais incômoda.

Chica também carregava as contradições de seu tempo

Reconhecer sua excepcionalidade não significa transformar Chica em uma heroína perfeita.

Ela ascendeu dentro de uma sociedade escravista e, depois de liberta, tornou-se também proprietária de pessoas escravizadas. Estudos históricos contemporâneos ressaltam justamente essa dimensão contraditória de sua trajetória.

Isso nos obriga a abandonar tanto a caricatura da “escrava sedutora” quanto a tentação de transformá-la numa personagem do século XXI.

Chica precisa ser compreendida dentro do século XVIII.

Sua história não é simples.

E talvez exatamente por isso seja tão importante.


De Diamantina a Paris

Gabrielle Chanel nasceu em 1883, na França.

Sua realidade era completamente diferente daquela enfrentada por Chica. Compará-las não significa equiparar escravidão racial no Brasil colonial à pobreza europeia do final do século XIX.

São experiências historicamente incomparáveis em dimensão e violência.

Mas existe um ponto de encontro possível: as duas conheceram sociedades profundamente hierarquizadas e conseguiram movimentar-se para além do lugar social de onde partiram.

Chanel viveu uma infância pobre e recebeu educação conventual. Depois entrou no universo da moda como modista. O Victoria and Albert Museum registra que ela começou na área por volta de 1909 e abriu sua primeira boutique de chapelaria em Paris em 1910.

Relacionamentos com homens ricos contribuíram com capital, contatos e acesso a determinados círculos sociais — especialmente Boy Capel, identificado pelo V&A como o primeiro investidor de seu negócio.

Mas aqui também existe uma distinção essencial:

ter recebido ajuda não explica aquilo que Chanel construiu.

Capital pode abrir uma porta.

Não constrói sozinho uma marca capaz de atravessar um século.

Chanel mudou mais do que roupas

A grande ruptura provocada por Chanel estava na maneira como ela enxergava a mulher.

No começo do século XX, roupas femininas ainda estavam fortemente associadas a estruturas rígidas e peças que modificavam e restringiam o corpo. Chanel caminhou na direção oposta: simplicidade, movimento, conforto e funcionalidade.

Utilizou jersey — então considerado um tecido simples e utilitário — para criar peças femininas de linhas mais livres. O tecido, antes associado principalmente a roupas masculinas e peças funcionais, tornou-se parte da revolução estética de Chanel.

Ela ajudou a consolidar uma imagem de mulher moderna que poderia trabalhar, circular, viajar, praticar esportes e ocupar a cidade com maior liberdade física.

A roupa deixou de ser apenas ornamentação.

Passou também a comunicar autonomia.

Em 1926, seu little black dress já alcançava tamanho impacto que a Vogue norte-americana o comparou ao Ford — referência à sua capacidade de se tornar quase universal.

Aquela menina pobre havia se tornado uma das mulheres que definiam como outras mulheres desejavam se apresentar ao mundo.


Então, afinal, o que liga Coco Chanel a Chica da Silva?

Talvez uma palavra:

DESLOCAMENTO.

Chica deslocou-se da condição jurídica de mulher escravizada para a liberdade e, posteriormente, para uma posição de riqueza e prestígio dentro de uma sociedade que estabelecia barreiras brutais para uma mulher negra.

Chanel deslocou-se da pobreza para o centro de uma indústria internacional e, mais do que ocupar a elite, interferiu nos códigos estéticos dessa própria elite.

As duas compreenderam — cada qual dentro das possibilidades e limitações de sua época — algo fundamental sobre poder:

não basta entrar em determinados espaços. É preciso aprender seus códigos.

Chica compreendeu os códigos de prestígio do Tijuco: patrimônio, educação dos filhos, religiosidade, relações sociais e pertencimento.

Chanel compreendeu os códigos de Paris — e depois fez algo ainda mais radical: começou a modificá-los.


Mas existe outra coincidência: os homens aparecem em suas histórias

João Fernandes aparece quando contamos Chica.

Balsan e Boy Capel aparecem quando contamos Chanel.

E isso merece reflexão.

Durante séculos, biografias femininas foram frequentemente explicadas pelos homens aos quais essas mulheres estiveram ligadas.

Quem foi seu marido?

Quem foi seu amante?

Quem financiou sua trajetória?

Quem lhe abriu determinada porta?

As perguntas são historicamente legítimas.

O problema começa quando elas se tornam a explicação inteira para o sucesso de uma mulher.

Chica não pode ser compreendida apenas através de João Fernandes.

Chanel não pode ser compreendida apenas através de Boy Capel.

Homens fizeram parte de suas trajetórias.

Mas não foram suas trajetórias.


E nenhuma delas deve ser transformada em santa

Existe ainda um ponto que torna essa comparação mais adulta e intelectualmente interessante.

As duas carregaram contradições.

Chica alcançou liberdade e riqueza dentro de uma sociedade escravista e tornou-se proprietária de escravizados.

Chanel, por sua vez, viveu episódios controversos durante a ocupação alemã da França na Segunda Guerra Mundial. Sua biografia, portanto, não pode ser reduzida apenas à narrativa glamourosa da genial estilista.

Mulheres extraordinárias também podem ser contraditórias.

Reconhecer isso não diminui necessariamente sua relevância histórica.

Ao contrário.

Retira-as do pedestal e devolve-as à História.


Duas mulheres. Duas sociedades. Duas transgressões possíveis.

Chica da Silva morreu em 1796.

Coco Chanel morreu em Paris, em 1971.

Nunca poderiam ter se encontrado.

Mas imaginemos, apenas como exercício literário, uma mesa impossível entre Paris e Diamantina.

Talvez Chanel olhasse para Chica e reconhecesse uma mulher que compreendeu muito cedo a importância da aparência, dos códigos sociais e da presença.

Talvez Chica olhasse para Chanel e reconhecesse outra mulher que percebeu que aquilo que vestimos, possuímos, aprendemos e mostramos ao mundo também pode funcionar como linguagem de poder.

E talvez ambas concordassem sobre algo ainda mais profundo:

uma sociedade pode tentar determinar onde uma mulher deve permanecer — mas algumas mulheres passam a vida inteira redesenhando esse lugar.

É aí que, para mim, Paris encontra Diamantina.

Não porque Coco Chanel e Chica da Silva tenham histórias iguais.

Elas não têm.

Não porque tenham enfrentado as mesmas opressões.

Não enfrentaram.

Mas porque suas trajetórias nos obrigam a pensar sobre mulher, classe, raça, poder, imagem, oportunidade, estratégia, preconceito e mobilidade social.

Chica não precisa ser apenas a mulher sensual eternizada pela ficção.

Chanel não precisa ser apenas o perfume, o tailleur, as pérolas ou o vestido preto.

Antes dos mitos existiram duas mulheres.

Mulheres que aprenderam a movimentar-se em sociedades construídas sem imaginar que pessoas com suas origens chegariam tão longe.

E chegaram.

Não puras.

Não perfeitas.

Não livres de contradições.

Mas grandes demais para permanecerem nos lugares que lhes haviam reservado.

Duas mulheres que ousaram e marcaram suas épocas.

E talvez seja exatamente por isso que, séculos depois, continuamos falando sobre elas.

Eunice Espínola
Jornalista DRT BA 5569

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