O cooperativismo de crédito no Brasil consolida-se como uma das mais relevantes ferramentas de inclusão financeira e desenvolvimento sustentável. Quando articulado aos povos originários, esse modelo ultrapassa a lógica econômica tradicional e assume um papel estratégico na promoção dos direitos humanos, da proteção social e da valorização cultural dos territórios tradicionais.
Muito antes da formalização do cooperativismo moderno, os povos originários já praticavam a cooperação como fundamento de vida coletiva. A produção compartilhada, a gestão comunitária dos recursos e o respeito à natureza sempre estruturaram suas formas de organização social e econômica. Nesse sentido, o cooperativismo contemporâneo, ao dialogar com esses saberes, reconhece práticas ancestrais que permanecem atuais e necessárias.
Crédito justo e autonomia comunitária
O cooperativismo de crédito, quando desenvolvido de forma ética e culturalmente sensível, possibilita às comunidades indígenas acesso a serviços financeiros justos, incentivo à agricultura familiar, ao artesanato, à economia criativa e a iniciativas sustentáveis. Trata-se de um crédito que respeita o tempo do território, a tomada de decisão coletiva e a identidade cultural, fortalecendo a autonomia econômica sem impor modelos externos.
Esse fortalecimento econômico impacta diretamente a proteção social, especialmente de mulheres, crianças e adolescentes. A redução da dependência financeira e o aumento da renda comunitária contribuem para a diminuição de vulnerabilidades sociais, da negligência e de ciclos de violência estrutural.
Comunicação como eixo de transformação social
A comunicação é elemento central nesse processo. Não se trata apenas de informar sobre produtos financeiros, mas de traduzir o cooperativismo para a realidade dos povos originários. Linguagem acessível, escuta ativa, valorização das narrativas orais, dos símbolos e das lideranças comunitárias são fundamentais para que a informação se transforme em conhecimento e empoderamento.
Quando bem conduzida, a comunicação assume um papel educativo e preventivo, fortalecendo vínculos comunitários e ampliando a consciência de direitos. Comunicar, nesse contexto, é promover cidadania econômica e social.
Economia solidária e direitos humanos
O alinhamento entre cooperativismo de crédito, economia solidária e direitos humanos reforça a compreensão de que desenvolvimento não pode ser medido apenas por indicadores financeiros. Ele deve ser avaliado pelo impacto positivo na vida das pessoas, na preservação dos territórios e na construção de uma sociedade mais justa e plural.
Essa abordagem dialoga diretamente com a atuação do Instituto Helenas Não Se Calarão, que defende a economia solidária como instrumento de proteção social, prevenção das violências e fortalecimento da dignidade humana.
Conclusão
O cooperativismo de crédito, quando comunicado de forma ética, inclusiva e culturalmente respeitosa, torna-se mais do que um sistema financeiro. Ele se transforma em uma ponte entre tradição e futuro, promovendo autonomia, justiça social e respeito à diversidade dos povos originários. Fortalecer essas comunidades é fortalecer o próprio Brasil, em sua pluralidade e humanidade.
Eunice Espinola
Jornalista e comunicadora social, fundadora do Instituto Helenas Não Se Calarão, atua na defesa dos direitos humanos, na prevenção da violência doméstica e familiar e na promoção de iniciativas de economia solidária como eixo de transformação social.
Por Eunice Espinola