
Catu, Bahia —
Na manhã desta sexta-feira, o Espaço Multicultural de Catu deixou de ser apenas um equipamento público para se tornar um território de escuta, tensão e afirmação. Ali, cerca de 150 pessoas se reuniram não apenas para assistir a um evento, mas para participar de um movimento: o encontro “Mulheres em Espaços de Poder”.
Organizado pelo Instituto Helenas Não Se Calarão em parceria com o Coletivo de Mulheres ( Hilmara, Carla Sandra e Magnovanda) o evento propôs mais do que um debate — ofereceu um espelho. E nele, refletiram-se as contradições de um país onde mulheres ainda disputam, diariamente, o direito de ocupar lugares que historicamente lhes foram negados.
Ao longo da manhã, a programação se desenrolou como um mosaico de experiências. No centro, uma roda de conversa reuniu vozes distintas, porém atravessadas por um ponto comum: a vivência concreta do poder — e dos obstáculos para alcançá-lo.
Entre as participantes estavam a palestrante e mentora Zazá Souza, a coordenadora Leidiene Queiroz, a médica Bruna Vieira, a delegada-geral adjunta da Polícia Civil da Bahia, Márcia Pereira, a sindicalista Bete e a vereadora Juci Cardoso. A mediação, conduzida pela investigadora aposentada Carla Sandra Vieira, deu cadência a um diálogo que alternou entre o técnico e o visceral.
A presença institucional também marcou o encontro. A secretária da Mulher de Catu, Marianna Araújo, trouxe uma fala objetiva, reforçando que políticas públicas para mulheres precisam ultrapassar o discurso e se materializar em ações concretas.
Ainda que o protagonismo feminino tenha sido o eixo central, a presença masculina também se fez notar com o vereador Neto Cachorrão, sinalizando a importância de aliados na construção de uma sociedade mais equitativa.
Mas foi na força das falas que o encontro ganhou temperatura.
“O empreendedorismo é uma chave real de libertação. Quando a mulher conquista sua autonomia financeira, ela rompe ciclos e redefine o próprio destino.”
— Zazá Souza
“A história de Helena nos atravessa. Ela nos lembra que existem muitas mulheres invisíveis — e é por elas que precisamos levantar a voz todos os dias.”
— Leidiene Queiroz
“Ser jovem não diminui minha responsabilidade. Pelo contrário: reforça meu compromisso com o empoderamento feminino e com o futuro que estamos construindo.”
— Dra. Bruna Vieira
“A Polícia Civil tem um papel essencial no acolhimento. Não é apenas investigar — é proteger, ouvir e garantir que essas mulheres não estejam sozinhas.”
— Dra. Márcia Pereira
“Eu venho de um ambiente duro, machista, onde precisei resistir todos os dias. Minhas feridas não me pararam — elas me ensinaram a lutar.”
— Bete, sindicalista petroleira
“Minha trajetória não foi fácil. Foi construída entre dores e conquistas. E é isso que me sustenta: saber que cada passo abriu caminho para outras mulheres.”
— Vereadora Juci Cardoso
Sob a condução firme e sensível de Carla Sandra Vieira, as falas não apenas se organizaram — elas ganharam profundidade, ritmo e escuta.
Não se tratava apenas de trajetórias de sucesso. O que emergiu foram os bastidores: os silêncios impostos, as interrupções, as barreiras invisíveis que ainda estruturam a desigualdade.
E, ainda assim, havia estratégia.
As participantes apontaram caminhos concretos: formação política, autonomia econômica, redes de apoio e permanência nos espaços conquistados.
Em um dos momentos mais marcantes, a evocação da história da patronesse do Instituto Helenas Não Se Calarão rompeu o fluxo racional do encontro e mergulhou o público em um silêncio carregado de emoção. Houve lágrimas. Houve reconhecimento. Houve verdade.
Ao final, não havia respostas prontas — mas havia um compromisso coletivo.
Porque discutir poder é, inevitavelmente, discutir transformação.
E, em Catu, nesta sexta-feira, essa transformação deixou de ser discurso. Tornou-se presença.
Eunice Espinola
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