O aumento dos casos de feminicídio no Brasil tem acendido um alerta em diversas esferas da sociedade. No entanto, um recorte ainda pouco debatido — e muitas vezes silenciado — é o dos crimes cometidos por agentes das forças de segurança pública contra suas companheiras
Dentro das corporações policiais, onde a disciplina, o controle emocional e a autoridade são pilares institucionais, cresce uma contradição preocupante: homens treinados para proteger a sociedade que, em alguns casos, tornam-se autores de violência doméstica e feminicídio.

Entre o preparo técnico e o despreparo emocional
A formação policial brasileira, em sua maioria, prioriza o enfrentamento ao crime, o uso da força e a resistência física. Mas especialistas apontam que há uma lacuna significativa no cuidado com a saúde mental dos agentes.
Rotinas exaustivas, exposição constante à violência, pressão hierárquica e o acesso facilitado a armas de fogo criam um ambiente de alto risco emocional. Quando esses fatores se combinam com padrões culturais machistas ainda presentes na sociedade, o resultado pode ser devastador.
A ausência de acompanhamento psicológico contínuo e políticas efetivas de prevenção contribui para o agravamento de conflitos pessoais, que muitas vezes se manifestam dentro do ambiente familiar.
O silêncio institucional
Outro ponto crítico é o silêncio dentro das próprias corporações. Denúncias envolvendo policiais frequentemente enfrentam barreiras como o corporativismo, o medo de retaliação e a descrença nas medidas disciplinares.
Para muitas mulheres, denunciar um agressor que veste farda significa enfrentar não apenas o companheiro, mas todo um sistema que pode protegê-lo.
Esse cenário dificulta a ruptura do ciclo de violência e, em casos extremos, culmina no feminicídio — o assassinato de mulheres motivado por gênero.
Saúde mental como política de segurança pública
Especialistas defendem que o enfrentamento desse problema passa, necessariamente, por uma mudança estrutural nas instituições policiais.
Investir em saúde mental não é apenas uma medida de cuidado com o agente, mas uma estratégia de segurança pública. Programas de escuta psicológica, acompanhamento contínuo, avaliação emocional periódica e canais seguros de denúncia são essenciais.
Além disso, é fundamental promover uma cultura institucional que não normalize comportamentos abusivos e que responsabilize, de forma rigorosa, os autores de violência.
Um debate urgente:
"Eu sou o macho alfa e você, fêmea alfa, me deve submissão” não é sobre força — é sobre controle. Relações verdadeiras não se constroem na imposição, mas no respeito, no diálogo e na igualdade. Onde existe hierarquia emocional, falta parceria.
Falar sobre feminicídio dentro das forças de segurança não é atacar as instituições, mas fortalecê-las. É reconhecer que a proteção da vida começa também dentro de casa — e dentro das próprias corporações.
O enfrentamento à violência contra a mulher exige coragem, inclusive para olhar para dentro das estruturas de poder.
Porque não basta combater o crime nas ruas se ele continua acontecendo entre quatro paredes.
#éporrespeitoquelutaremos
Por Eunice Espínola