MENU
Síndrome de Cassandra: quando o alerta feminino vira silêncio institucional
Por Eunice Espínola
Publicado em 11/02/2026 17:51
MUNDO NEWS

 

A chamada “Síndrome de Cassandra”, inspirada na personagem da mitologia grega que previa tragédias mas não era acreditada, tornou-se uma metáfora poderosa no campo psicológico e forense.

No contexto contemporâneo, ela descreve situações em que uma pessoa — frequentemente uma mulher — alerta sobre riscos reais, como abuso, negligência, violência doméstica ou falhas institucionais, e é:

desacreditada

ridicularizada

patologizada

silenciada

Quando analisamos sob o eixo Estado x Mulher x Sociedade, o fenômeno ganha contornos estruturais.

⚖️ 1. Estado: quando o sistema não escuta

No âmbito jurídico e institucional, a “Cassandra” pode ser:

a mulher que denuncia violência doméstica e não recebe proteção imediata;

a mãe que alerta sobre abuso infantil e é acusada de alienação;

a servidora que denuncia assédio moral e sofre retaliação;

a denunciante de corrupção institucional ignorada por superiores.

O problema não é apenas individual — é sistêmico.

A descrença reiterada produz revitimização institucional.

2. Mulher: entre a coragem e o descrédito

Estudos sobre violência de gênero mostram que mulheres são historicamente associadas a:

exagero emocional

histeria (conceito médico historicamente usado para deslegitimá-las)

instabilidade

“conflitos pessoais”

Essa construção cultural alimenta o fenômeno da Cassandra moderna:

a mulher que fala é vista como “problemática”, não como portadora de verdade.

E quando ela insiste, passa a ser considerada “descontrolada”.

3. Sociedade: cultura do silêncio

A sociedade frequentemente:

normaliza sinais de violência

relativiza denúncias

questiona a vítima antes do agressor

exige “provas impossíveis”

O resultado é uma engrenagem que transforma alerta em ruído e denúncia em exagero.

No campo forense

Em avaliações psicológicas e perícias, pode surgir o risco de:

interpretar sofrimento como paranoia

confundir insistência legítima com delírio persecutório

minimizar sinais precoces de violência

Por isso, a escuta qualificada e a análise baseada em evidências são fundamentais.

✊ A questão central

A “Síndrome de Cassandra” não é um diagnóstico clínico oficial.

É uma lente crítica para compreender como a estrutura social pode desacreditar quem denuncia violências reais.

Quando o Estado falha, a mulher adoece.

Quando a sociedade desacredita, o agressor se fortalece.

Quando a denúncia vira silêncio, a violência se perpetua.

Eunice Espinola Jornalista DRT 5569 BA

Comentários

Chat Online