A chamada “Síndrome de Cassandra”, inspirada na personagem da mitologia grega que previa tragédias mas não era acreditada, tornou-se uma metáfora poderosa no campo psicológico e forense.

No contexto contemporâneo, ela descreve situações em que uma pessoa — frequentemente uma mulher — alerta sobre riscos reais, como abuso, negligência, violência doméstica ou falhas institucionais, e é:
desacreditada
ridicularizada
patologizada
silenciada
Quando analisamos sob o eixo Estado x Mulher x Sociedade, o fenômeno ganha contornos estruturais.
⚖️ 1. Estado: quando o sistema não escuta
No âmbito jurídico e institucional, a “Cassandra” pode ser:
a mulher que denuncia violência doméstica e não recebe proteção imediata;
a mãe que alerta sobre abuso infantil e é acusada de alienação;
a servidora que denuncia assédio moral e sofre retaliação;
a denunciante de corrupção institucional ignorada por superiores.
O problema não é apenas individual — é sistêmico.
A descrença reiterada produz revitimização institucional.
2. Mulher: entre a coragem e o descrédito
Estudos sobre violência de gênero mostram que mulheres são historicamente associadas a:
exagero emocional
histeria (conceito médico historicamente usado para deslegitimá-las)
instabilidade
“conflitos pessoais”
Essa construção cultural alimenta o fenômeno da Cassandra moderna:
a mulher que fala é vista como “problemática”, não como portadora de verdade.
E quando ela insiste, passa a ser considerada “descontrolada”.
3. Sociedade: cultura do silêncio
A sociedade frequentemente:
normaliza sinais de violência
relativiza denúncias
questiona a vítima antes do agressor
exige “provas impossíveis”
O resultado é uma engrenagem que transforma alerta em ruído e denúncia em exagero.
No campo forense
Em avaliações psicológicas e perícias, pode surgir o risco de:
interpretar sofrimento como paranoia
confundir insistência legítima com delírio persecutório
minimizar sinais precoces de violência
Por isso, a escuta qualificada e a análise baseada em evidências são fundamentais.
✊ A questão central
A “Síndrome de Cassandra” não é um diagnóstico clínico oficial.
É uma lente crítica para compreender como a estrutura social pode desacreditar quem denuncia violências reais.
Quando o Estado falha, a mulher adoece.
Quando a sociedade desacredita, o agressor se fortalece.
Quando a denúncia vira silêncio, a violência se perpetua.
Eunice Espinola Jornalista DRT 5569 BA