Por que viajar, quando um olhar pode atravessar continentes?
Há dias que não cabem na agenda. Precisam ser guardados na memória.
Naquela manhã, meu Lôbo decidiu me mostrar o universo por trás de uma cobertura fotográfica. Sorri antes mesmo de sair de casa.
Escolhi um jeans boyfriend de lavagem clara, uma camiseta ampla deixando os ombros respirarem a leveza do dia, meu inseparável All Star vermelho e uma bolsa saco de couro cruzada sobre o corpo.
Os cabelos, presos em um discreto rabo de cavalo baixo, permitiam que meu velho chapéu de brechó roubasse a cena.
Jasmim sobre a pele.
Muito protetor solar.
E uma curiosidade impossível de esconder.
Lá fomos nós.
A exposição ao ar livre sobre a Turquia parecia um convite para atravessar séculos sem sair da cidade.
Meu Lôbo fotografava sem descanso.
Cada detalhe merecia um registro.
Cada expressão.
Cada cor.
Cada fragmento de história.
Confesso que, por diversas vezes, deixei de olhar a exposição para observá-lo trabalhando.
Existe uma beleza silenciosa em alguém completamente entregue ao que ama fazer.
Enquanto ele transformava instantes em fotografias, eu recolhia palavras.
Era minha forma de eternizar o mesmo momento.
Descobri que o primeiro grande assentamento urbano do mundo surgiu em Çatalhöyük. Que a primeira pintura de uma paisagem nasceu naquele mesmo solo. Que o lendário Rei Midas viveu em Gordion. Que São Nicolau, o homem que inspirou o Papai Noel, nasceu na Turquia. Que Homero respirou aqueles ventos antes de escrever a Ilíada.
Cada informação ampliava meu fascínio.
Era como degustar, lentamente, uma taça de Buyulubag Reserva Cabernet Sauvignon 2005.
Não pelo vinho.
Mas pela embriaguez do conhecimento.
...
Quando a noite caiu, encerramos os últimos registros.
Meu Lôbo baixou a câmera.
Olhou para mim.
Sorriu.
Há sorrisos que descansam o corpo inteiro.
Naquele instante compreendi que existem viagens que começam muito antes da estrada.
Começam quando encontramos alguém capaz de nos ensinar a olhar o mundo com outros olhos.
E talvez seja essa a mais rara de todas as formas de luxo.
Nota da Editora
Este texto faz parte do projeto de preservação e valorização do acervo literário de Eunice Espínola. Ao longo dos próximos meses, a Stella Brasil Comunicações republicará obras selecionadas do Diário da Idade da Lôba, acompanhando a preparação de uma nova fase da personagem e de futuras publicações.